segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008



As historietas do ex-vereador

(Por Alberto Souto de Miranda)

Um dever de recato
1. Já me tinham dito que o Sr. Prof. Manuel Ferreira Rodrigues continuava sem perceber porque é que o convidei a demitir-se do Executivo camarário a que tive a honra de presidir. Já me tinham alertado que, doentiamente, continuava a atribuir-me as culpas da sua confrangedora inépcia como vereador, apesar de ter tido tempo mais do que suficiente para, humildemente, interiorizar as suas próprias limitações. Ficava triste com o que ouvia. Afinal, tinha a esperança de que, três anos volvidos, o Manuel Ferreira Rodrigues recuperasse a lucidez então perdida e que algum distanciamento histórico lhe permitisse, se não a percepção mais real do seu desempenho, pelo menos o recato da sua esquizofrenia política.

2. Optimismo o meu. O Sr. Professor Manuel Ferreira Rodrigues, em vez de se dedicar à investigação histórica, que é o que sabe fazer bem, preferiu reescrever a história recente, o que tenta fazer mal. É assim que se deslustra um historiador no vão afã de rever “la petite histoire” de um inefável vereador. Em vez de fazer com que o tempo apague a triste memória daqueles seus dias patéticos, preferiu exorcizar os demónios da sua incompetência política e prestar-se a uma nova instrumentalização dos seus dislates oratórios, que o tornaram tristemente célebre nessa época.

3. É caso para dizer, Sr. Prof. Manuel Ferreira Rodrigues, que, depois da paciência e solidariedade que todos os membros do Executivo tiveram consigo - ao tentarmos disfarçar a descalabrada “gestão” cultural e educativa em que se ridicularizava a si e nos penalizava a todos, não havia necessidade de ser mal agradecido e de me obrigar a vir a terreiro para desmascarar a sua tentativa de revisionismo dos factos e para esclarecer aquilo que foi um caso raro de anedotário cívico.

4. Como é que é possível que o Manuel não consiga ainda compreender que ele foi um manifesto caso de “erro de casting” e que, do primeiro dia ao último, foi um tremendo equívoco e uma inequívoca incompetência? Será que ele não sabe que todos se recordam bem das suas tristes e quixotescas figuras? Será que ele não entende que há muita gente disponível para testemunhar que há um historiador a lidar mal com a sua própria história? Assim o quis, então. Assim o terá.

O Museu da República

5. Na badalada entrevista ao DA, afirma que o Sr. Prof. A. Pedro Vicente se sentiu humilhado “com a vereação do Prof. Celso Santos e com as duas vereações de Alberto Souto” (sic!): ora, precisamente, o vereador da minha segunda vereação responsável pelo Museu da República foi um tal Manuel Ferreira Rodrigues… A confissão de que foi ele mesmo que humilhou o Professor A. Pedro Vicente fica-lhe bem: na verdade, depois de todas diligências que efectuei para que o acervo viesse para Aveiro, como de facto e de direito veio a acontecer, a paralisante gestão do Manuel tudo bloqueou. Os meses iam passando e todas as boas ideias do museu multimédia – de que ele parece querer ufanar-se, mas que já existiam quando chegou à Câmara – estavam por concretizar.

6. É falso, pois, que eu tenha boicotado o projecto. Simplesmente, tive a desdita de o Museu calhar a um vereador que tudo encalhava e só muito falava. Palavras, muitas palavras, nenhuma acção. Excepto duas: a proposta de trazer o Presidente Jorge Sampaio para inaugurar algo que ainda não existia – o que, ao ritmo da revelada ineficácia do Manuel, me pareceu deveras imprudente e precipitado e aqueloutra de, sem consultar ninguém, se ter comprometido ao pagamento de honorários incomportáveis ao pintor António Viana – no que foi absolutamente irresponsável. É falso que não tenha conversado com o Prof. Carvalho Homem, como certamente o próprio se recordará. Mas é verdade que não recebi o pintor António Viana: o Manuel, sem coragem para assumir as consequências dos seus irreflectidos actos, ainda queria que fosse eu a ter de explicar que tinha um vereador politicamente inimputável… Travei as duas. Aliás travaram todos os membros do Executivo. É verdade. Fui, realmente, um travão aos disparates do Manuel.

7. Eu queria um Museu da República, pólo multimédia de pedagogia cívica, ancorado no acervo do Sr. Prof. A. Pedro Vicente, assinei o protocolo de doação e trouxe para Aveiro o espólio. Isso foi o que eu fiz. O Manuel não se sabe bem o que queria, nada fez imaginando que fazia algo e tudo deitou a perder. E é pura e simplesmente falso o que afirma sobre a minha intenção de devolver o acervo e de o não ter feito por receio de algumas figuras do PS. Isto deve ser um delírio seu, para se justificar perante alguns maçons de colheita pechisbeque, que agora acedem facilmente aos aventais, adquiridos nas lojas dos trezentos. Os outros, eticamente consistentes, não caucionam estas bazófias.

A destruição de Arquivos

8. O Manuel também se queixa de que, no seu tempo, foram destruídos os arquivos da Casal e da Junta de Cacia. O desconchavo do lamento releva do patológico: então esquece-se – como sempre se esqueceu - que lhe competia a si, vereador da cultura, inventariar os arquivos relevantes e propor e adoptar as medidas cautelares necessárias para tal evitar? E que, mesmo depois de lembrado, nunca fez nada para o concretizar? E atreve-se a queixar-se disso, como se, da minha parte, houvesse qualquer conivência ou desconsideração com essas preocupações, no que se torna absolutamente insultuoso! Ora, eu não lhe reconheço sequer maior vontade do que a minha em preservar todos os arquivos importantes. A nossa diferença em matéria de arquivos foi apenas uma: o Manuel queria um Arquivo Municipal novo, construído de raiz; eu achava que devíamos, antes disso, optimizar os espaços vazios do novíssimo Arquivo Distrital em Aradas, que estava subaproveitado. Eu queria preservar logo e em boas condições. O Prof. Manuel Ferreira Rodrigues preferiu protestar por um novo arquivo municipal e deixar tudo disperso. A minha solução era a de boa gestão dos dinheiros e equipamentos públicos, a do Manuel era a de alguém que tudo quer, nada resolve e de tudo se lamenta, mesmo das suas próprias distracções. Um achado este Manuel. Mas em si mesmo perdido.

A atribuição de subsídios às Associações
9. Sobre a política cultural da Câmara, o Manuel profere mais uns dislates. Afirma que a relação com as associações não era séria. Torna a esquecer-se de que era ele o vereador da cultura! Ele lá sabe, a seriedade que com elas mantinha… Realmente, não devia ser muita, porque, pouco tempo depois de ele ter iniciado funções, começaram as queixas. Afirma que, enquanto lá esteve, os subsídios eram atribuídos “ao sabor das influências, dos amigos do partido, das pessoas sonantes…”. Ora, esta confissão seria fantástica se não fosse pungente: é que, como eu nunca agendei a atribuição de qualquer subsídio por essas razões, só se pode concluir que eram essas as motivações das propostas subscritas pelo vereador responsável. Os subsídios eram todos, mas todos, aprovados em Reunião de Câmara. O Manuel está a insultar todos os membros do Executivo e a si mesmo.

A política cultural e educativa do ex-vereador

10. E que dizer da sua opinião de que as animações de Verão lhe fazem lembrar a União Soviética? Mas não era ele o responsável? E eu que só lhe conhecia as simpatias pela China comunista… Porque é que não propôs nenhuma mudança? Acha que eu não devia ter convidado a Marisa? Fico bem com esse pecado. E com o gosto de milhares de aveirenses. Mas, convenhamos, alguém tinha de fazer alguma coisa enquanto o vereador divagava nas reuniões de professores e de pais e as transformava em comícios sobre a tecnologia dos frigoríficos e a revolução francesa. Ou sobre a tecnologia dos frigoríficos e a revolução inglesa. Ou sobre a tecnologia dos frigoríficos e a revolução portuguesa. Mas nunca sobre o tema da reunião de trabalho. O comiciar a despropósito, o Manuel era bom. O problema é que, a “gerir” esmagava os munícipes e as associações com o século dezanove. Se estivesse com pressa. Porque, nos dias mais folgados, a coisa começava no paleolítico. Carências nas escolas? Era preciso enquadrar isso no contexto da expulsão dos jesuítas… Ineficiência total. Chacota generalizada. E o pior é que ainda não se deu conta disso.

11. Afirma, de novo em dilacerante confissão de mediocridade que, “enquanto eu fui vereador, a política cultural oscilava entre navegar à vista e a liberal”. Escusava de lembrar: foi por isso também que foi demitido... Mas torna a ser injusto com a História quando afirma que, “durante o Euro 2004, se malbaratou muito dinheiro em espectáculos eleitoralistas que fazia muito jeito ao crescimento e afirmação das associações”. Esquece-se que as associações locais foram envolvidas na programação? É a favor de um bairrismo fechado e contra a universalidade da cultura? Que eleições? Ou está pura e simplesmente a ser maldoso e sem memória? Mas olhe que há muita gente com vontade de recordar o seu indecoroso desempenho nesse período: quer mesmo que alguém lhe lembre o episódio do livro que ficou com a incumbência de coordenar? Já pediu desculpa aos autores? Valha-me Deus, tanta cabotinagem.

Os museus e a Biblioteca
12. E lamenta-se, de novo, por Aveiro ainda não ter um museu da cerâmica e do azulejo. Recordo-me bem de o termos confrontado com isso: a responsabilidade de preparar o projecto era sua! E várias vezes o interpelei nesse sentido… E quanto ao Museu de Sal, não engane os leitores: eu não queria fazer uma “caixa grande” na Marinha da Troncalhada. Queira reconstituir uma construção típica das marinhas para funcionar como pólo pedagógico. Será que não chegou a ver o projecto?

13. Enfim, realmente, a situação financeira já não permitiu que se avançasse na ideia da nova biblioteca. É verdade que sou ambicioso para a minha terra. Uma nova Biblioteca em Aveiro, depois de já termos a do Siza Vieira na Universidade, tinha de ser uma obra marcante da arquitectura nacional, se possível em relação com a água e bem enquadrada e não mais um edificiozeco incaracterístico. Lembrei-me, de facto, do Lago do Paraíso. Talvez um dia se faça.

A Orquestra das Beiras
14. O mínimo que o Manuel Ferreira Rodrigues devia fazer sobre este assunto era calar-se para sempre. Mas não. Depois de ter mentido na época, tem o desplante de tornar a mentir agora. Convém então recordar que o Manuel era o representante da CMA na Associação que titulava a Filarmonia. Ora, chocantemente, o Manuel, sendo vereador da cultura de Aveiro e sendo a Filarmonia um instrumento estratégico para a afirmação cultural do Município, foi conivente com as deliberações da Associação em extinguir a Filarmonia, e nem sequer teve a presença de espírito, primeiro e a frontalidade, depois, de comunicar tal facto aos membros do Executivo. É completamente falso que me mantivesse informado do que se estava a passar. Soubemos, estupefactos, por terceiros. De bradar aos céus! Um crime maior de lesa cultura aveirense em que o vereador estava conluiado, perpetrado à revelia do executivo que representava! O cúmulo da insensibilidade, da ingenuidade – o projecto era dissolver a Orquestra para deixar crescer a de Coimbra - e da deslealdade.

15. E não vale a pena agora inventar mais patranhas. Não foi a situação financeira a causa de nada: a Associação tinha uma situação líquida positiva de 150 mil Euros - o que era notável para um projecto desta exigência - e as dívidas da CMA de Aveiro foram imediatamente pagas quando nos percebemos do que estava em curso. Consegui, depois, “in extremis” suspender a deliberação de dissolução e salvar a Filarmonia. Custa a crer que o Manuel não seja ainda capaz de pedir desculpa. Porque a minha culpa foi, apenas, a de ter salvo a Filarmonia de uma golpada política praticada nas barbas de um vereador relapso e que tinha abdicado de defender os interesses de Aveiro. Foi, por isso, convidado a demitir-se. Pela segunda vez.

Equívocos e ingratidão

16. O Manuel Ferreira Rodrigues foi o único vereador que me foi sugerido pelos órgãos concelhios do PS. Os outros foram de minha escolha pessoal. Foi, manifestamente, uma sugestão infeliz e um caso flagrante de alguém que nunca se adaptou à exigente função de vereador. Apesar da gravidade e da reincidência dos seus lapsos, erros, inércias, omissões e disparates, todos tentámos ajudar - até no simples despacho, que se acumulava meses e meses – e tolerámos, até ao limite, as suas públicas pantominas, os arremedos do maoísmo serôdio, o irrealismo, as fantasias e a tanta incompetência. Quando passou à deslealdade e à grave lesão dos interesses de Aveiro, a saída do Executivo era inevitável. Apesar disso, foi convidado a demitir-se com elevação e amizade e sem recriminações públicas ou privadas. É por isso que a entrevista ao DA tendo sido dada por um superior intelecto, podia ter sido dada por um estupor sem tino, sem siso, sem memória, mas com a iliteracia política e o analfabetismo ético, de quem não se coíbe de gratuita e disparatadamente vilipendiar quem sempre o protegeu.

Uma obra cultural com futuro
17. O Teatro Aveirense, a casa Major Pessoa, o Ciclo sobre Arte Nova, o Arquivo Distrital, a Casa da Cultura, a Orquestra das Beiras, o apoio a todas as Associações Culturais, ao teatro, às bandas musicais, à dança e às artes plásticas, à Arquitectura, a realização de grandes espectáculos e eventos de nível internacional, a edição de livros e monografias de grande qualidade, as Conferências do Milénio, as exposições dos pintores nacionais consagrados, a sede para o Aveiro Arte, a recuperação da Capitania, o Centro Cultural de Esgueira, as obras - ainda em curso - do Museu de Aveiro, a preservação dos moliceiros, a Carta Educativa e as novas escolas construídas, a cooperação frutuosa com a Universidade, etc., etc., etc. Por tudo isto me bati e tudo isto se fez. Sem o Manuel e, às vezes, apesar dele. Com uma equipa extraordinária. Com sentido estratégico e capacidade de realização. Deve ser com medo deste futuro que aparecem entrevistas destas. Saborosas de indignidade.



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(Texto publicado no Diário de Aveiro de 25 de Fev de 2008)

2 comentários:

Anónimo disse...

Dois Homens tão diferentes, admirados por razões tão diferentes, criticados por razões tão diferentes ... e no entanto ambos tentaram (à sua maneira) fazer o melhor pelo nosso Aveiro.
Do Dr. MFR não nos esqueceremos do coração, da amizade, da simpatia e do humor e do Dr. ASM da liderança, da criação, das ideias, da persistência e da coragem.
Uma coisa é certa ... ambos escrevem muito bem!!!
Parabéns pelos artigos!!!

Anónimo disse...

Se fazes mais uma destas o ASM vem-se. Tem cuidado com os olhos.